segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Psiquiatria de Aldir Blanc – Vida Noturna


Escrever sobre a mitológica figura de Aldir Blanc Mendes, este carioca nascido no Bairro do Estácio em 2 de setembro de 1946, por si só já se configura uma loucura da minha parte. É como mergulhar num poço sem fundo, sem saber exatamente aonde chegar. Não que o conjunto de sua obra não siga uma linha coesa, não que suas palavras não tenham sentido ou mesmo sua postura como artista brasileiro, mas, muito mais, por mim mesmo: há tanta coisa que eu queria escrever sobre! Ah, quanta coisa!
Se os mais desavisados, acredito que não haja muitos, não souberem de quem se trata, basta assoviar rapidamente canções como “O Bêbado e o Equilibrista”, “Dois prá lá, Dois pra cá”, “Kid Cavaquinho”, “O Mestre Sala dos Mares” e eu ia ficar aqui dias e dias, tempos em tempos, listando seus grandes sucessos em parceria com o grande João Bosco – isso porque citei apenas composições em parceria com este, imagina se eu começasse a citar junto ao seu nome Moacyr Luiz, Paulo César Pinheiro, Maurício Tapajós, Guinga...
Fiquei na dúvida na escolha do disco no qual eu me basearia para falar sobre a arte de Aldir Blanc. Fiquei realmente entre a cruz e a espada. Mais especificamente, entre “Rio, ruas e risos”, Lp de 1984 feito em parceria com Maurício Tapajós, no qual Aldir coloca sua voz malandreada e boêmia em diversas canções, ora dividindo o vocal com Tapajós, ora sozinho, e “Vida Noturna” de 2005. Os dois discos são bons. Vale uma audição minuciosa. Contudo, escolhi aquele de melhor acesso nas prateleiras das boas lojas de cd’s.
Produzido por Moacyr Luz, Thomas Roth e Zé Luiz Soares para a gravadora Lua Discos, “Vida Noturna” é um belíssimo tratado de psiquiatria boêmia e deve ser biscoitinho prateado (que saudade do vinil) certo nas noites de qualquer casa, apartamento, boteco ou reunião de amigos em torno da santa garrafa de cerveja gelada! Antes de tudo: é belo. Mais que tudo: é forte. É um pávido colosso poético! Você realmente estremece ao ouvi-lo. Pois é uma viagem a um cotidiano noturno: e toda escuridão é profunda. E isso o psiquiatra Aldir Blanc Mendes sabe muito bem!
Este cd é marcado, ainda, pela retomada de uma parceria há muito abandonada, é o reatar de uma amizade sonora entre as belas harmonias de João Bosco e as fortes palavras de Aldir Blanc (ver: “Vida Noturna” e “Me dá a Penúltima”, onde, em todas as duas, Bosco também dá o ar de sua graça cantando e tocando violão).
Os cuidadosos arranjos do magnífico Cristóvão Bastos (se não o conhece, já é sacrilégio, porém, basta folhear alguns discos do Chico Buarque ou Edu Lobo e saberás de quem estou falando!) e seu piano muito bem casado com os violões de João Bosco, Moacyr Luz, João Lyra, Guinga e o grande Hélio Delmiro, dá um ar de bar. Dá um cheiro de conhaque. De álcool. Aliás, a parceria de Aldir com este último (“Constelação Maior”) é de chorar por tão belo violão. Hélio Delmiro continuo grande! Com o querido Moa, o poeta da Tijuca, de Vila Isabel, do Estácio... assina “Recreio das Meninas II” e “Dry”, absurdamente boas! Na primeira, a história de um velho apreciador de samba e freqüentador do Renascença (quem é carioca sabe onde fica) é uma viagem maravilhosamente divertida e doce na qual Moacyr Luz e Aldir Blanc dividem o vocal. “Dry” é mais pesada, o eu lírico feminino amargurado é muito bem interpretado pelo próprio Aldir – com voz potente e firme –, o solo de violão de João Lyra sustentado pela segura base do piano de Bastos... sem palavras, eis a letra:

Você foi embora falando que eu era até gente boa
Mulher não tolera essas frases que homem a toa costuma dizer.
Lembro as toalhas molhadas no chão, fios de barba na pia
E rezo a Virgem Maria pra que filha minha não pegue homem assim.
Eu me sentia um cinzeiro repleto das pontas que você deixava
E que ironia essa imagem:
A guimba apagando é quando mais queimava.
Você saiu dando tchau
Brincou que ao meu lado era o tal
Fiquei pendurada no adeus como um velho avental
Foi amor de trapaça e de tara e de beijo na nuca, de tapa na cara
Andei meio louca sem ser maltratada
Parei com esse vício, mas quase morri
Hoje somente se bebo o dia seguinte pode me afetar
É que a secura me lembra teu jeito de amar.


Ainda temos uma parceria com Maurício Tapajós (“Flor de Lapela”); a ótima “Lupicínia” com Jayme Vignoli; “Cordas” com o grande Guinga (que participa com o violão e voz) e, por fim, “Resposta ao Tempo” junto com Cristóvão Bastos, aliás, pianista que deveria ser conhecido pelas novas gerações. “Resposta ao Tempo” com Aldir Blanc e “Todo Sentimento” com Chico Buarque, só estas duas canções, apenas, já deveriam canonizar as harmonias do Cristóvão Bastos na imortalidade!
Sem parcerias, Aldir assina em “Vida Noturna”: “Dois Bombons e Uma Rosa”, “Velhas Ruas” e “Paquetá, Dezembro de 56” que certificam o casamento entre o poeta indiscutível e o ótimo melodista.
“Vida Noturna” é um cd que vale a pena o preço que for para ter na estante, como um livro, como um tratado. 12 músicas. 12 respostas ao tempo. Depois de ouvir “Vida Noturna”, só posso citar o próprio mestre (e esse é o tratamento dado por Moacyr Luz a Aldir Blanc): “Um riso de aurora e a pressão subiu/ Peguei meu remédio, mas as mãos tremiam e o vidro caiu/ Chutei a caixinha, pedi caipirinha, pernil e café/ Receita infalível pro meu coração é um corpo moreno de mulher...” (Trecho de “Recreio das Meninas II”).
Deixo para vocês que conseguiram ficar comigo até o fim desse papo, o ótimo clipe da canção “Me dá a Penúltima” com a presença no estúdio de diversos ases aqui já citados! E saravá!








domingo, 7 de fevereiro de 2010

“Macunaíma também anda de pedalinho”: Delírio Carioca – Guinga



Produzido por Zé Nogueira e gravado entre janeiro e fevereiro de 1993, Delírio Carioca (Velas, 1993), segundo disco de carreira do dentista-violonista, compositor e há algum tempo cantor, Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, conhecido mundialmente, simplesmente, como Guinga, tem uma pá de coisa que me impressiona: melodias e harmonias que não beiram à perfeição, são ela manifestada e eternizada em sons; ritmos diversos que são indefiníveis para um pobre ouvinte como eu e, por fim, as fortes letras de Aldir Blanc, esse cronista carioca que utiliza as palavras como um turbilhão de imagens que de tão cariocas-suburbanas se tornam universais. Ainda há espaço, mesmo que em uno para a impecável letra (Saci, segunda faixa do disco) de Paulo César Pinheiro, outro ás da poesia musical brasileira e parceiro de grandes nomes da música do nosso país.
Como de sempre, fico com os clássicos enquanto meu amigo Aquino Man se encarrega do que há de novo pelos arados musicais do nosso mundo. A escolha de Delírio Carioca não foi à toa, depois de duas semanas de volta a Aracaju, dessa vez acompanhado da esposa e companheira de luta e labuta, esse tem sido o som que mais tenho ouvido no player. Por coincidência da vida, recebo um e-mail do meu querido Gustavo Alvaro me informando que havia comprado um songbook do Guinga por uma bagatela numa feira de livros no Centro do Rio. Ficamos então no bate-pronto.
Comentei com ele sobre esse esplendoroso trabalho e enumerei as músicas que para mim se destacavam. Quando terminei, percebei que todas as 15 canções eram fenomenais. O primeiro disco de Guinga, assinado em parceria com Blanc, Simples e absurdo, já era um absurdo de bom, porém, nesse novo trabalho, continuando com as ótimas participações musicais, assim como ocorreu no primeiro, dessa vez: repetindo a dose, Fátima Guedes (cantando Passarinhadeira), Djavan (cantando de forma primorosa, a faixa que dá nome ao trabalho), Lucia Helena (divina em Choro pro Zé), Leila Pinheiro (em Baião de Lacan) e Boca Livre (entoando Visão de Cego), Guinga vai além e continuou indo até o recente Saudades do Cordão (Biscoito Fino, 2009).
As belas canções Canção do Lobsomem e Catavento e Girassol, as duas em parceria com Aldir Blanc e cantadas por Guinga, merecem reverência eterna, não só pela complexidade das melodias, mas, também, pelo casamento perfeito com as letras do Aldir. Versos marcantes!
Acredito que para todo aspirante a “tocador” de violão, Delíro Carioca é um divisor de água. Guinga deveria virar nome de praça em Madureira, onde nasceu. Guinga deveria virar nome de método de composição (que saudade do Chediak!). Enquanto caminho pelo calçadão da 13 de julho em Aracaju, vendo o vai e vem dos carros e das pessoas, que saudade que aperta do Rio de Janeiro e me imagino ouvindo os acordes do violão do Guinga sendo entoados no Teatro Rival ao lado do Zé Rentato, do Jardes e do Moacyr Luz... um deliro! Carioca, um delírio!

Delírio Carioca(Guinga - Aldir Blanc)

No Rio: mar.
Ouço Netuno assoviar
um Gershwin Clara Nunes
qua faz vibrar feito flauta
os túneis.

Um cisco no olho azul da Lagoa:
sozinho,
Macunaíma anda de pedalinho.

No Rio-Festa,
Porgy and Bess
tapeiam mais um turista argentino
e o chope é fino no azul cristalino.

E vem num avião um Jobim azulão
e a chuva é flecha em São Sebastião...

A clave rosa da manhã atinge um balão.
Maravimentirosa:
Dá pra pegar jacaré no arrastão.


Para comprar clique em Delírio CariocaPara saber mais sobre Guinga acesse: http://www.guinga.com/

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sou nós

Salve, salve. Como todos sabem, aqui no Retropleco o tempo é realmente relativo, pelo menos para mim. A única regra é simples. Um texto meu e um texto do Aquino Man (G. Alvaro partiu, cronista ocupado, mas vale a leitura de seus blog’s clica nos link's depois e vê), se vai demorar, a gente não está nem aí. Man é mais técnico. Eu, mais sentimental.
Isso do tempo significa que mesmo com quase um ano, mais ou menos, de atraso falarei sobre o ótimo primeiro disco solo do compositor Marcelo Camelo (Los Hermanos, ou Los Hiato’s?). O ótimo encarará controvérsias, eu sei. Mas como o mais sentimental aqui sou eu, me permito a isso. E sei que existirão acompanhantes de mãos dadas comigo.
Na verdade, o pressuposto que utilizo aqui no Retrô... é o seguinte: o trabalho que resenho, que descrevo, tem que ser sentido. Ou seja, não tem que ter tocado apenas no meu cd player, tem que ter tocado no meu coração. Há tempos “Sou” toca nos dois. De fato, já na primeira audição, logo quando de seu lançamento em 2008, me senti mexido. Me recordo que a preta ainda morava num gostoso apartamento em Del Castilho, Zona Norte do Rio de Janeiro, cheguei do shopping, coloquei a bolachinha prateada e me deitei com uma taça de vinho – ela foi dormir. Com o tempo, olha de novo ele aí, as músicas foram tomando formas mais geométricas nas ruas do meu coração. Eu via Copacabana no carnaval na própria Copacabana do Marcelo, aliás, belíssima marchinha. Pensava em Liberdade nos momentos de solidão olhando a Avenida Adélia Franco do meu apartamento em Aracaju. Sentia o cheiro da Janta tomando vinho chileno ou italiano acompanhado de um sonho, olha o vinho aí de novo também. Sentia o cheiro das flores em Menina Bordada. Sorria com minha Doce Solidão. Ficava Passeando pelos sons da alma, aliás, tudo é Saudade.
Na minha última vinda para o Rio de Janeiro, estou aqui enquanto escrevo este texto, com um ventinho frio entrando pela janela, com uma chuvinha fina caindo, vim decidido a comprar alguns presentes de natal adiantado para meus amigos sergipanos, já que estaria aqui agora, e foi esse cd magistral que escolhi para presentear uma amiga minha muito querida, aliás, Pequeno gafanhoto – assim a chamo carinhosamente – esse texto vai para ti! Eu havia comentado sobre o trabalho para ela, a menina encontrou um clip amador da música Janta no Youtube e se amarrou. Mas, pasmem, em nenhuma loja da querida Aracaju é possível comprar esse trabalho do Camelo. Parêntesis, estava eu fuçando uma prateleira nas Lojas Americanas (lugar menos pior para comprar cd's em Sergipe!) quando uma adolescente perguntou sobre o trabalho solo do hermano para o vendedor: resposta negativa. Penso que muito provavelmente o interesse fosse pela participação, sincera e esforçada, diga-se de passagem, de Malu Magalhães na canção supracitada.
Prosseguindo, pois é seguindo que a gente anda em frente seja para sentir saudade ou não, quando cheguei para morar definitivamente em Aracaju, fui “dividir” apartamento com o “anjo mais velho” Kiko, na verdade, ele me emprestou um espaço da casa para eu ficar um tempo - obrigado eterno! Foram noites e noites chorando ouvindo esse cd, a ponto do meu amigo até se preocupar. A trilha sonora do choro ficou a cargo de James Taylor, pode rir, adoro James Taylor. Voltando ao disco em questão...
Arranjos bem elaborados, aquela sonoridade típica, tem tudo ali em Sou – Nós. Tem espaço para voz e violão. Espaço para tristeza, alegria contida, esperança. Piano. Ritmicamente também é rico, não me aprofundarei mais nesse quesito, pois estou utilizando a memória do coração aqui – o cd ficou em Aracaju.
Mas é isso. Sem muito a dizer, porém, muito mais a sentir. Eu sou nós! Obrigado Santa Chuva, eu já estava com saudades da tua inspiração – lindo céu cinza! Lindo céu cinza no meu Rio de Janeiro... pois depois de oito meses em Aracaju, eu aprendi a entender o que quis dizer o pintor francês Nicolas-Antoine Taunay sobre o céu de um irritável azul...

sábado, 24 de outubro de 2009

De amor, de mar e de uma caneca de café acompanhada de um disco de samba numa noite de sábado.


Conselheiro
(Batatinha/Paulo César Pinheiro)

Sou profissional do sofrimento
Professor do sentimento

Do amor fui artesão
Mestre do viver já fui chamado
Conselheiro do reinado

Cujo rei é o coração

Mestre do viver já fui chamado
Conselheiro do reinado

Cujo rei é o coração

Quebrei do peito a corrente

Que me prendia à tristeza
Dei nela um nó de serpente

Ela ficou sem defesa

Mas não fiquei mais contente

Nem ela menos acesa

Tristeza que prende a gente

Dói tanto quanto a que é presa

Abre meu peito por dentro

O amor entrou como um raio

Saí correndo do centro

Dentro do vento de maio


É assim, ao som da poesia de Batatinha e Paulo César Pinheiro que a brasiliense Ligiana abre seu disco de estréia, De Amor e de Mar [Tratore, 2009].

Já tinha passado pelo blog em que encontrei a indicação do disco da moça na quinta-feira, e fiquei curioso quando li sobre as participações de Hamilton de Hollanda no bandolim, de Tom Zé, e da produção do DJ Tudo; mas entre uma coisa e outra não baixei. Calhou de vir pegar isso hoje, numa parada que dei das minhas leituras medievalistas (tá me aterrorizando hein Bruno!) nas agonias de final de período da universidade, início de noite de sábado, eu aqui em casa sem um tostão no bolso pra sair e fazer alguma coisa, sou acompanhado pela caneca de café e pelas músicas que vou selecionando aqui.Tava com vontade de ouvir um samba, ae lembrei do disco da moça que tinha esquecido lá no blog, e baixei... A empolgação foi tamanha que senti a necessidade de posta-lo aqui, apenas 1 hora após ter ouvido.


A voz dela é linda, e o disco é de uma musicalidade perfeita! Samba fino, parece coisa de gente da velha guarda, com vários anos de experiência. Além dela, os dois três pontos que mais chamaram minha atenção: a produção refinada do grande Alfredo Bello (vulgo DJ Tudo), o bandolim mágico (órfão de Jacob) de Hamilton de Hollanda, e a seleção do repertório.

Ligiana é de Brasília, musicóloga graduada em canto lírico. Após se formar, foi para a Holanda, estudar canto barroco, de lá ela foi para a Itália, onde fez um mestrado em Filologia Musical, e começou a cantar MPB. Da Itália Ligiana seguiu para a França, onde continuou a cantar sambas e começou a compor."Queda por um samba", música presente no disco foi composta na França, por ela em parceria com seu pai, do outro lado do telefone.Continuou seus estudos escrevendo uma tese de doutorado sobre ópera barroca veneziana pelas Universidades de Tours e de Milão.Nos anos que passou em Paris ela montou o esboço desse primeiro disco, que foi gravado entre São Paulo, Paris e Brasília.

Mais informações no Myspace dela.


Ligiana - De Amor e de mar [2009]

01 Conselheiro
(Batatinha / Paulo César Pinheiro)
02 Consideração
(Cartola / Heitor dos Prazeres)
03 Se
(Tom Zé)
04 Só se não for brasileiro nessa hora (Morais Moreira/ Luis Galvão)
05 Onda
(Ligiana)
06 Canto do caboclo pedra preta
(Baden Powell/ Vinícius de Moraes)
07 Festa no olhar
(Philippe Baden Powell/ RodriGo Alzuguir)
08 Queda por um samba (Ligiana/Celso Araújo)
09 Chorando Baixinho (Abel Ferreira/Celso Araújo)
10 Pandeiro do Brasil
(Luiz Peixoto/José Maria de Abreu)
11 Eu quero é botar meu bloco na rua
(Sérgio Sampaio)

sábado, 5 de setembro de 2009

Cartilha para cariocas longe de casa: “Vitória da Ilusão” de Moacyr Luz

Carioca é bairrista, não há dúvidas quanto a isso. Da Zona Sul à Zona Norte. Da Baixada Fluminense à Região Serrana: o carioca é bairrista. Pode até, estando longe de casa, das praias, do Maracanã, do trem, da quadra de samba, do arrastão, das balas perdidas, dos morros e das mulatas, considerar bom o lugar em que vive, mesmo não sendo o seu amado Rio de Janeiro. Pode até achar boa a comida, bonita as mulheres, simpática as pessoas, mas, sem discussões, ele continua bairrista – não perde a identidade. Carioca que é carioca pode até perder o x do sotaque, mas quando liga para o Rio, quando volta ao estado, carrega na voz o chiado.
Lançado originalmente em 1995, numa tiragem mínima, Vitória da Ilusão, do carioquíssimo Moacyr Luz, talvez, um dos melhores sambistas vivos do Brasil, deveria, na minha opinião, ser chamado de “cartilha para cariocas longe de casa”. Relançado em 2006, pela Dabliú Discos (http://www.dabliudiscos.mpbnet.com.br/) este trabalho marca a excelente parceria com o ás da poesia/ crônica do cotidiano carioca, Aldir Blanc (nome que ao lado de João Bosco fez escola na música boa brasileira).
Por que “cartilha para cariocas longe de casa”? Simples! Por dois pontos: nesse disco há um equilíbrio enorme entre o tal bairrismo carioca a que me referi e as coisas do Brasil. Sim, isso mesmo! Aldir Blanc como letrista tem esse “quê a mais”: consegue equilibrar temas típicos do cotidiano do Rio de Janeiro com assuntos de interesse natural do país – veja Itajara, que abre o disco, com os impecáveis versos ácidos de Aldir Blanc: Todo mundo afana:/ Da gang do Escadinha ao seu bacana/ Só que a falange vermelha/ Ao menos governa em cana, que remetem ao famoso bandido carioca Escadinha, um dos fundadores da Falange Vermelha que viria mais tarde se transformar no Comando Vermelho (CV). No entanto, a letra toda remete à corrupção na política nacional. Afinal, o samba, como expressão musical e intelectual, não tem fronteiras.
Em segundo lugar, traz à tona uma pintura certeira do Rio de Janeiro, sem meias palavras, basta ouvir a belíssima Saudades da Guanabara – uma das mais belas letras de Aldir Blanc – que fecha o álbum e sacraliza o tal bairrismo com os versos: Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro/ Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro. Ou mesmo a letra de Centro do coração. Todas pinturas do Rio de Janeiro. Bairrista isso? Claro! Mas perdoável, muito perdoável – já que desenhos!
Cartilha. Manual para todo carioca. Mapa do Rio para os visitantes, não pelo samba, pois não será ele quem te guiará pela Penha, Uruguaiana, 7 de Setembro e aí é que tá o trunfo e o talento de músico, compositor e interprete de Moacyr Luz: você será guiado pela musicalidade.
Recheado de vários ritmos, eu não ousaria dizer que Vitória da Ilusão podería ser chamado de um disco apenas de sambas, só porque seu interpréte e compositor é um grande sambista. É um trabalho de esmero artístico, melodias bem feitas, harmonias elaboradas, um samba aqui, um samba acolá, sem dúvidas, mas isso tudo não está só a serviço do bom e velho ritmo dos morros cariocas. Está a serviço da música.
Com participações de Beth Carvalho, Cristina Buarque e integrantes das Pastoras da Portela, o disco é uma bolacha – eita termo que me dá saudade – saborosa!
Destaco, aos cariocas de plantão em terras distantes as músicas: A já comentada Centro do coração, parceria de Moacyr Luz com Aldir Blanc e Vítor Martins; Só dói quando eu rio; Flores em vida (Pra Nelson Sargento); Mico preto e Paris: de Santos Dumont aos travestis, todas essas em parceria com Aldir Blanc. Claro, não deixe de ouvir e recitar feito oração a maravilhosa Saudades da Guanabara, parceria do sambista com Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro que, inclusive, deixo para degustação em vídeo retirado do Youtube.
Na verdade, meus camaradas, listar os destaques aqui é pura perda de tempo, taí um trabalho impecável do início ao fim, fica agora a dúvida do motivo dele ser pouco executado nas rádios apesar de alguma das canções desse disco serem bem conhecidas nas vozes de inúmeros intérpretes, já que se trata de um apanhado de quase dez anos de parceria entre Moacyr e Aldir.
Moacyr Luz, fez nesse Vitória da Ilusão a vitória da boa melodia, da boa letra e da boa harmonia! Trouxe luz para a música brasileira e acredite, depois de ouvir, você verá que o que leu aqui, não era ilusão!

Para adquirir o cd e concordar comigo ou não: http://www.submarino.com.br/produto/2/1682156/cd+vitoria+da+ilusao

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Violas Cariocas!!!


Amigos, tudo bom?


Com prazer que declaro que fui convidado a escrever uma coluna sobre viola e música caipira no portal Cronicas Cariocas! Um site inteligente, sóbrio e com uma proposta cultural envolvente.

Já há uma semana eu abri uma coluna de crônicas por lá, voltada para meu trabalho humorístico e crítico, que você pode conferir aqui

Mas a novidade de hoje, voltada para nosso projeto, é a coluna de música regional! A coluna atende pelo nome de VIOLAS CARIOCAS!!!! Escrita pelo violeiro Gustavo Alvaro, que atende como eu.

gostaria que os amigos apreciassem a coluna. segue...

Violas Cariocas


Obrigado! E vamos tocando!!!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Samba, misterioso samba!

Já disse certa vez, não sei de onde nem quando, que a música se manifesta em nós das maneiras mais surpreendentemente possíveis no dia a dia: por brincadeira, sentimento, arte, etc.
Minhas férias de infância, não só as minhas como as de Gustavo Alvaro, foram sempre passadas na Ilha de Paquetá. Lugar do Rio de Janeiro que guardo numa gaveta especial da minha memória. Caminhadas com meu primo, sozinhos, ainda moleques, pescarias na Ponte da Saudade, finais de tarde no Mirante... Tempos bons.
Samba para mim e, creio que também, para ele, é uma coisa que esteve sempre aqui na lembrança, num lugar desconhecido da memória. Criados no morro, impossível em algum momento da infância não termos ouvido Alcione – e me lembro que a “marrom” era muito ouvida pela minha tia, sua mãe –, Roberto Ribeiro, Agepê, Originais do Samba, Zeca Pagodinho, Dicró e me lembro bem da nossa avó paterna ouvir muito, mais muito mesmo, Benito di Paula. E assim crescemos, estudamos música, ora por brincadeira, ora sério, mas, vai lá, estudamos e estudamos ainda, seja como entusiastas ou falsários. Fico para mim com o falsário – a flauta transversa anda muda aqui no meu apartamento em Aracaju!
Mas vamos ao samba, ao misterioso samba!
Chegou quente dia desse aqui para mim, o excelente “O Samba Informal de Mauro Duarte”, cd duplo, lançado em 2008 pela gravadora Deckdisc. Conduzidas de maneira magistral pelo ótimo Samba de Fato e a cantora Cristina Buarque – que vi moleque e, também, adulto em vários sábados de roda de samba em Paquetá, naquele bar pertinho da Biblioteca Pública que fica no casarão Solar D’El Rei. O tempo longínquo não me ajuda com o nome do bar, que inclusive tomei muito picolé Kibon com meu tio Expedito e o próprio Gustavo.
São 30 sambas maravilhosos do grande Mauro Duarte, um dos grandes sambistas cariocas (nascido, na verdade, em Minas Gerais), cujas melodias impecáveis fizeram muito sucesso, por exemplo, na voz de Clara Nunes e ainda hoje embalam rodas de samba no Rio de Janeiro.
Falecido em 1989, Mauro Duarte, deixou um legado musical que merece destaque, tal que o disco gravado por Cristina Buarque e o pessoal do Samba de Fato (Pedro Miranda, Pedro Amorim, Alfredo Del-Penho e Paulino Dias) demonstra isso muito bem.
Da primeira faixa do cd 1 até a última do cd 2 o que se ouve é samba de qualidade, gravações perfeitas, equilibradas, ritmistas certeiros, cavaquinho e violões que exalam: samba! Meu Deus e que samba!
Projeto, no meu ponto de vista, audacioso, primeiro por se tratar de um cd duplo, o que, de certa forma, encarece o produto e em tempos de pirataria, preço alto assusta. Mas, vale cada centavo, meus caros! Vale pelo encarte bem feito, pelas letras impressas e ainda, o certeiro trabalho de explicar as composições de Mauro, o famoso Bolacha.
Em segundo lugar, a audácia está no minucioso trabalho de pesquisa. Na verdade, substituo audácia por talento.
O cd tem esse caráter que adoro de pesquisa musical, de resgate. São sambas do compositor (com parceiros) garimpados de cadernos de anotações, da memória de gente como Walter Alfaiate, Paulo Cesar Pinheiro, que inclusive finaliza várias letras que estavam incompletas. Enfim, um trabalho de História Oral maravilhoso!
A voz da sambista Cristina Buarque, sua ginga, dão um tempero bem dosado, os vocais do pessoal do Samba de Fato, ora solando, ora em coro e sempre tocando todos os instrumentos faz desse disco, para mim, algo indispensável na prateleira de qualquer amante do bom e sempre jovem velho samba!
A participação de Paulo César Pinheiro, não só assinando as letras das composições incompletas, como com a voz em duas canções (Sublime Primavera e Samba de Botequim) dá um toque a mais na bolacha prateada.
Ou seja, não dá para não ter, tem sim que meter a mão no bolso e comprar e não reclama muito não, pois no Rio de Janeiro, pelo menos, você poderá ouvir e depois correr para Lapa para tomar um bom chopp gelado. Esse aqui, pagou a mais por conta do frete e depois de ouvi-lo por volta da uma da madrugada não tinha nenhum bar aberto em Aracaju para me satisfazer a vontade! Então, parabéns!
Vou ficando por aqui e caso você queira saber mais sobre o trabalho, acesse www.deckdisc.com/mauroduarte. No encarte do cd há várias informações que você terá se adquirir o trabalho, pois esse daqui, não vai soltar por nada!

Abração